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Troye Sivan faz da carência sua matéria-prima mais afiada em She’s the Best

Entre a euforia da pista e o quarto vazio, o rei do hedonismo transforma o desejo por alguém em um dos melhores discos de sua carreira.

15 OUT 20268 MINPOR CAIO CALIEL
Retrato em preto e branco de Troye Sivan sentado junto a um sofá

Troye Sivan fez o dever de casa completo. Levou o ARIA de Álbum do Ano em 2024, é embaixador das campanhas da Prada, rodou a América do Norte ao lado de Charli XCX no auge de Brat e ainda conseguiu transformar uma caminhada de Nicole Kidman pela calçada em acontecimento pop no anúncio de seu novo disco.

Agora, aos 31 anos, Troye volta sua atenção para as horas que esse currículo não registra: o quarto de hotel vazio, a solidão depois do show, o desejo de encontrar alguém com quem dividir a vida. Três anos depois de Something to Give Each Other, She’s the Best nasce desse intervalo entre a euforia coletiva e a intimidade que ainda falta em sua vida. Há Madonna em sample e combustível para a pista, mas também uma pergunta que o sucesso deixa em aberto: com quem ir embora quando a festa acaba?

Capa oficial do álbum She’s the Best, de Troye Sivan
She’s the Best — Troye Sivan (2026). Capa oficial.

Troye vem narrando esse amadurecimento em público há mais de uma década. Em 2013, aos 18 anos, assumiu-se gay num vídeo no YouTube. Desde então, seus álbuns guardam algo da idade em que foram escritos: Blue Neighbourhood (2015), aos 20, atravessado pelos primeiros amores; Bloom (2018), aos 23, mais à vontade com o sexo e o próprio desejo; Something to Give Each Other (2023), aos 28, entregue à possibilidade de encontrar prazer e conexão depois de uma separação. “Rush” levou essa descoberta às pistas e lhe rendeu as duas primeiras indicações ao Grammy. Na nova produção, o diário ganha uma inquietação familiar: querer que alguém fique. O próprio Troye diz que o álbum novo “continua de onde o último parou”, só que lendo o que estava debaixo da festa.

A faixa-título abre o disco num trip-hop arrastado, com Troye mais perto de uma conversa do que do canto. Ele descreve uma mulher: DJ de quarta a segunda, cigarro fino, sorriso bonito, uma mancha suspeita no vestido e talento para desmontar machista na internet. Os detalhes são específicos o bastante para parecer fofoca, e é daí que vem o encanto. Segundo o cantor, a inspiração está nas mulheres que o protegeram, entre elas uma professora que o poupou de uma humilhação na escola. O elogio tem a intimidade de quem prestou atenção. Por alguns minutos, Troye se ocupa apenas de admirar.

Troye Sivan e Nicole Kidman em uma cena do clipe de She’s the Best

“Canada Dry” e “Party” mantêm o disco na pista, ainda perto da euforia de Something to Give Each Other. Na primeira, o desejo tem o humor particular de Troye: ele sente ciúme do suor que encosta num homem e quer beber seu corpo até secar, num trocadilho com o refrigerante. A malícia funciona porque vem acompanhada dessa pequena falta de compostura. Ele pode ser o homem mais desejado da sala e ainda assim invejar uma gota de suor.

“Party” usa “Music”, de Madonna, como estrutura e aposta numa letra que funciona por insistência: a festa se espalha por uma sequência de lugares até virar um mantra. O sotaque australiano fez “party” soar como “potty”, a internet percebeu e Madonna acabou devolvendo um “party in the bush” no palco do VMA. Depois, Troye chamou o episódio de maior realização de sua vida. É difícil imaginar uma recompensa mais adequada para uma canção tão satisfeita com a própria brincadeira, e Troye Sivan merece.

É em “I Do This for You” que o espetáculo ganha um destinatário imaginário. Sobre uma produção grandiosa que aproxima de Janet Jackson, ele oferece tudo: dinheiro, sexo, sucesso, a vida inteira que está construindo. O detalhe decisivo está na dedicatória. Ele faz tudo por alguém que ainda não sabe quem é. Então a música desemboca na linguagem dos anúncios de solteiros da internet, e o astro reaparece afundado no sofá, pedindo desculpas pela histeria e admitindo estar um pouco sozinho. O sample de “Dream”, do Forest for the Trees, acrescenta uma névoa romântica à cena.

“Cowboy” dá corpo à fantasia. Troye contou que a música nasceu de um homem que apareceu em sonho, e a letra preserva essa mistura de nitidez e impossibilidade. As guitarras mais suaves acomodam uma imaginação sexual bastante desperta. É uma pequena frustração que o álbum conhece bem: ter alguém por perto apenas enquanto consegue imaginá-lo.

Em “Embarrassingly”, Troye ainda fantasia com o ex, revisita lembranças num iPhone 6S e transforma a masturbação numa maneira pouco recomendável de manter a relação em atividade. As guitarras luminosas dão leveza a uma confissão que ele sabe ser constrangedora. A vergonha do título está no descompasso entre o tempo passado e a intensidade do que permanece: o outro já saiu de sua vida, mas continua aparecendo à noite.

Troye Sivan deitado na areia, vestindo uma camisa branca, em fotografia em preto e branco

“Le Boy” devolve a carência ao futuro. Troye dirige, nada, toma café, viaja, aprende violão e escreve uma música para o rapaz que ainda não encontrou. Há uma vida bastante preenchida nessa lista, atravessada pela impaciência de quem já reservou a mesa e continua esperando a outra pessoa chegar. A voz começa distante, filtrada, antes de a faixa se abrir em camadas de guitarras e sintetizadores. O refrão estica o título até ele virar uma espécie de chamado. A expansão do arranjo dá tamanho à expectativa: “o homem” ocupa cada vez mais espaço numa vida em que ainda não apareceu.

“Sex Star” é um autorretrato delicado, mas engraçado, desse processo. Bronzeador artificial, personal trainer, abdômen, ator: Troye enumera as próprias credenciais com a ironia de quem conhece muito bem a imagem que oferece. Escrita com Finneas, a música deixa a insegurança aparecer por baixo da produção impecável. A cada vantagem anunciada, cresce a sensação de que ele está tentando descobrir o que ainda falta fazer para ser escolhido.

O que torna She’s the Best tão especial é o cuidado com que essa intimidade ganha forma sonora. Troye assumiu também a produção e gravou boa parte dos vocais no escritório de casa, recuperando a liberdade de quando fazia música no próprio quarto. Ao lado de colaboradores como Jack Antonoff e George Daniel, encontrou espaço para estruturas menos previsíveis e uma montagem de samples inspirada na banda australiana The Avalanches, segundo o próprio. Os arranjos fazem essa liberdade valer a pena: guitarras se dissolvem, vozes mudam de distância, flautas atravessam as batidas de dança e pequenos ruídos mantêm as canções em movimento. Há prazer em acompanhar uma melodia e perceber o que acontece nas suas bordas.

Em “FF”, abreviação de “fucking forever”, a expectativa do romance finalmente ganha cenas de uma vida a dois. Abastecer o carro, deixar combustível respingar porque o outro gosta do cheiro, ouvi-lo tocar violão e sentir ciúme: Troye imagina a duração de um amor pelos simples hábitos que poderiam sustentá-lo. Depois de tantas músicas tentando atrair esse homem, há algo comovente em vê-lo ensaiar como seria simplesmente passar o dia ao seu lado.

O encerramento deixa essa vida por acontecer. “Love So Big It Hurts” e “Lost Time”, com Lily-Rose Depp, se voltam para dentro, embora os arranjos conservem suas distorções e estranhezas. Na última, Troye imagina um dia em casa com o rapaz que ainda não chegou: nenhuma obrigação, os dois criando e recuperando o tempo perdido. A voz de Depp, em francês, encerra o álbum. O disco que começou homenageando as mulheres termina com uma delas segurando a porta enquanto ele espera o homem. Quando a música acaba, esse encontro ainda pertence ao futuro.

Troye Sivan canta sobre a vida que gostaria de ter com alguém, enquanto constrói uma música que já é inteiramente sua. Em She’s the Best, até a carência tem assinatura: está no humor das letras, nas vozes que se desdobram, nos arranjos que dão dimensão a sentimentos difíceis. O homem dos sonhos ainda não chegou, mas Troye já fez da espera um dos melhores momentos de sua carreira.

Nota
9.0/10