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Em POPSTAR, Tinashe faz da fama "subestimada" uma provocação

O novo álbum da cantora a faz assumir a pose de estrela, enquanto questiona suas próprias expectativas.

30 SET 20267 MINPOR CAIO CALIEL
Tinashe de óculos e fones, apoiada em uma mesa de som, em fotografia de Hugo Comte da divulgação de POPSTARFotografia: Hugo Comte.

Por doze anos, “subestimada” foi o adjetivo mais repetido sobre Tinashe. A palavra parecia elogio, mas reconhecia o talento sem precisar lidar com ele. Desde “2 On”, ela ocupou esse lugar estranho de artista sempre prestes a acontecer, sempre citada como caso de injustiça. Agora, POPSTAR chega como a resposta de quem cansou de esperar a coroação.

O disco não tem pressa de parecer humilde, nem tenta provar a solidez de uma carreira que já existe. Ele ocupa o título com deboche e consciência: ser popstar, aqui, não é obedecer ao molde, mas tomar para si uma palavra que por anos lhe foi oferecida como promessa, e negada.

Capa oficial de POPSTAR, de Tinashe
POPSTAR — Tinashe (2026). Capa oficial.

Vale lembrar de onde ela vem, porque o título desse álbum carrega histórico. “2 On”, lançada em janeiro de 2014, transformou Tinashe em nome de rádio antes mesmo de sua estreia completa; Aquarius saiu naquele outubro. Depois disso, a RCA passou anos tentando encaixá-la no tipo de popstar que funcionava no papel. Joyride foi anunciado, adiado e desgastado antes de finalmente sair em abril de 2018. Em entrevista à Cosmopolitan, ela disse ter chorado por dois dias quando foi obrigada a lançar “Flame” como single. Já em 2019, fora da RCA, Songs for You apresentou uma Tinashe menos à espera de permissão do que organizando o próprio centro de comando.

O que veio depois foi uma sequência de discos bons pelos quais poucas pessoas se interessaram (Songs for You, 333, BB/Ang3l, Quantum Baby), até que em 2024 o TikTok resolveu que "Nasty" era a música da vez. Virou a primeira entrada solo dela na Hot 100, enquanto o Quantum Baby, o disco da música, estreou no 199º da Billboard 200. O mundo adotou o hit e deixou o disco de fora. Em abril de 2026, ela tocou como DJ no Coachella. Ou seja, ninguém mais duvida que ela é uma grande popstar, e o que sobra é a pergunta de como se vive isso.

POPSTAR chega pela Tinashe Music, em parceria com Nice Life e Atlantic, marcando seu primeiro álbum com uma major desde a fase inicial da carreira. A volta ganha outro sentido depois dos anos em que ela precisou conduzir os lançamentos como obras experimentais: agora, existe uma artista com identidade definida para ocupar uma estrutura. Sem participações vocais, o disco concentra toda a atenção nela.

Tinashe agachada em uma cena noturna da divulgação de POPSTAR
Fotografia: Paris Helena.

“Sunglasses”, produzida por Arca, abre o disco com uma apresentação à altura: óculos escuros, música como religião e o recado de que existem bilhões de pessoas no mundo, mas uma só Tinashe. Entre sons eletrônicos, ela faz da própria singularidade uma provocação. A pose é de quem já sabe o que tem a oferecer e está cansada de explicar ao mundo.

“Too Easy” vem logo depois, afirmando que a fama é fácil. Gente, ninguém precisa repetir que é fácil quando é fácil. A provocação faz parte da graça: depois de tantos anos de trabalho, ela interpreta uma estrela sem esforço. “Tem muito sarcasmo nesse projeto”, explicou Tinashe à Stereogum. A DMY observou que, nessa faixa, a letra faz o trabalho pesado, e concordo: a produção dá impulso, mas é o exagero da facilidade que faz a música conversar bem com o início do disco. Dá para ouvir o sorriso de canto de boca.

“Melatonin” leva essa provocação para a pista. O nome promete um remédio para sono; a música acelera, com batida em quatro por quatro, sintetizadores e uma descarga de acid house na reta final. A letra explora a ironia de quem dormiu no ponto enquanto ela continuava trabalhando. É a revanche de quem ficou acordada, agora com energia suficiente para tirar o sono dos outros.

Mas essa sequência de afirmações encontra uma fissura em “Empty Stadium”. Os violinos e o clima noturno abrem espaço para o medo da cantora: morrer subestimada, continuar cantando sem ter certeza de que alguém escuta, nunca ser o bastante. Dúvida, paranoia e síndrome da impostora atravessam a letra. O estádio vazio dá uma imagem precisa à ansiedade: estar pronta para uma escala que talvez nunca venha. Depois de fazer a fama parecer fácil nas três primeiras faixas, Tinashe deixa aparecer o quanto ainda custa desejar ser vista.

A conta chega logo depois. "I'd Rather Be Alone" vem colada no interlúdio "Overdramatic", em que ela passa 44 segundos repetindo que é a mais brava do pedaço, e por isso dói mais: depois de se declarar intocável, ela admite que alguém a deixou cansada. Em sequência, a eletro-balada possui guitarras elétricas, e onde o título parece decisão, é na verdade uma negociação. Tinashe descreve uma relação desigual, em que decorou a pessoa inteira e não aparece quando ela precisa.

Em “Crash Out”, a promessa de explosão vira surto. Tinashe enumera o que já não consegue sustentar: a educação, a doçura, a obrigação de não responder à provocação como se nada a atingisse. No refrão, sair de casa basta para colocá-la perto de perder o controle. O detalhe diz mais sobre viver sob observação do que muita letra que anuncia estar falando de fama. Ela discute o sonho americano, manda a internet cuidar da própria vida e dispensa o papel de boa moça. Então entrega a melhor frase da música: “não precisa de validação, mas seria bom ter”. Saber o próprio valor não elimina a vontade de que alguém o reconheça.

“Pillow Fight” leva essa confiança para a cama, onde o controle também tem suas complicações. Ela começa avisando que uma cara bonita engana e que nunca foi inocente. A brincadeira rende, mas, perto dos dois minutos, a metáfora já entregou quase tudo o que tinha. A faixa seria só simpática se não fosse a ponte, que abre uma fresta de entrega no meio da provocação.

“Nobody Wanna Dance Anymore” tem o melhor encaixe entre título e letra. Em 2026, em um cenário de debate sobre a pista de dança estar ou não morta, Tinashe responde que vai dançar de qualquer jeito, com ou sem companhia, e quem estiver com o celular na mão pode só olhar. O pré-refrão traz o gancho de "Chillin'", do Wale com Lady Gaga, de 2009. A faixa é curta, e é a mais afiada do miolo do disco, justamente por não ter tempo de explicar a piada.

Na reta final, “Brainrot” e "Cloud 9” mantêm os graves e as vozes robóticas, prolongando a saturação digital do álbum. Mais adiante, em “Heavy Weight”, o eletrônico desaparece. Violão e voz encerram o disco numa escala íntima, com Tinashe tentando não se dobrar até quebrar sob o peso que carrega. A mudança pode soar abrupta, e há um risco nessa escolha: o despojamento deixa a canção responsável por sustentar uma intensidade que antes só vinha das batidas e efeitos.

Tinashe de óculos escuros e roupa branca no ensaio de Too Easy, da era POPSTAR
Fotografia: Onda.

Mas o final tem nexo. Tinashe descreveu o álbum como uma viagem que começa confiante, na sua cara, e aos poucos se torna introspectiva. “Heavy Weight” leva esse movimento até o limite. A persona de popstar, que ela define como um espaço em que se pode entrar, chega ao fim do expediente; quem a sustenta ainda precisa lidar com o cansaço. Esse peso já aparecia em “Cold Sweat”, de Aquarius, quando ela cantava sobre a pressão de ser uma jovem mulher na indústria. Doze anos depois, existe mais autonomia, mas a carga continua.

É nesse atrito entre saber o próprio valor e ainda desejar reconhecimento que POPSTAR encontra suas melhores músicas. Tinashe quer o palco, gosta de ocupá-lo e conhece o desgaste de continuar disputando sua atenção. Quando deixa essas vontades se contradizerem, o disco ganha mais do que qualquer declaração de autossuficiência poderia oferecer.

Nem toda faixa sustenta essa tensão com a mesma força, e algumas ideias perdem a graça antes de a música terminar. Ainda assim, há uma artista decidindo como quer soar, quanto quer exagerar e em que momento quer baixar a guarda. “Subestimada” ainda faz parte, e POPSTAR deixa esse peso entrar na música. Até quem sabe o próprio valor se cansa de ter que lembrá-lo aos outros.

Nota
8.7/10