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Smoke City transforma Flying Away, seu álbum de estreia, num idioma e gênero musical próprio

Quase três décadas depois, o disco atravessa Londres, Rio e Paris sem declarar exatamente em qual fronteira pretende ficar.

25 AGO 20267 MINPOR CAIO CALIEL
Capa do álbum Flying Away, do Smoke City

Existe uma certa injustiça em ganhar notoriedade por causa de um comercial de calça jeans. Em 1997, a música “Underwater Love” tocou em toda parte do mundo, puxada por um homem afogado sendo salvo por sereias, numa peça publicitária dirigida por Michel Gondry para a Levi's. A faixa recebeu certificação prata no Reino Unido e chegou ao top 5 das paradas. Por um bom tempo, essa faixa foi tudo que o mundo soube sobre Smoke City. O problema é que reduzir a banda a essa trilha equivale a julgar uma cidade inteira pela vitrine de uma única loja.

Smoke City começa em Londres, onde a cantora e compositora brasileira Nina Miranda e o DJ Marc Brown se conheceram, ainda adolescentes na escola. Nina, nascida no Brasil e criada entre diferentes países antes de se estabelecer na capital inglesa, pediu ao amigo para produzir uma base especialmente para ela. A ideia virou “Underwater Love”, que saiu discretamente em 1995 por um selo pequeno. Mesmo assim, foi só dois anos depois, catapultada pela Levi's e relançada pela Jive Records, que a música virou hit de verdade. Com Chris Franck completando a formação, Flying Away, o álbum de estreia do grupo, foi construído em cima do momento de destaque; não como uma sequência óbvia, e sim como se a banda quisesse provar que aquele hit era só a ponta de algo maior.

O sucesso abre o disco sem se comportar como um. São quase sete minutos para uma faixa que acabou atravessando a televisão, duração suficiente para transformar sua popularidade em uma pequena insolência. O beat avança aos poucos, a guitarra circula ao fundo e Nina alterna entre português e inglês com uma naturalidade que faz a mudança de idioma parecer uma simples mudança de temperatura. A produção se organiza em camadas: ecos de bossa nova, percussão, samples e ruídos de natureza aparecem como se a música estivesse constantemente mudando de paisagem.

“Devil Mood” vem logo depois, e surge como se a banda estivesse sabotando qualquer tentativa de transformar o sucesso anterior em fórmula. Sons graves ocupam o espaço, a percussão permanece deliberadamente e Nina deixa de ser uma figura sedutora para brincar com sons ressoados. Se a primeira música seduzia pelo mistério, “With You” seduz pela simplicidade: a aposta de que uma frase cantada sem ornamento nenhum consegue prender alguém por quase cinco minutos.

Depois vem “Numbers - Interlude No. 1”, e o disco muda de temperatura outra vez: uma batida percussiva insistente, sem dúvidas construída para o corpo, não para um ouvido contemplativo. É a faixa mais abertamente dançante do álbum, brasileira no impulso; o contraponto físico necessário depois de duas faixas que trabalham em sussurro.

“Mr. Gorgeous (And Miss Curvaceous)” é talvez o momento em que essa lógica chega mais perto de virar pop convencional, embora “convencional” aqui continue sendo uma palavra meio distante. Há violão, um balanço reconhecível e um “ai ai ai” feito para sobreviver fora do álbum. Sobreviveu. A faixa chegou ao topo das paradas italianas em 1997; porém o mais interessante é a maneira como Smoke City trata sensualidade de diversas maneiras em seu disco. É a faixa mais evidentemente pensada para um segundo sucesso, escondida no meio de uma obra que finge não se importar com isso.

Na sequência, “Águas de Março (Joga Bossa)” pega o clássico de Tom Jobim, uma canção sobre a passagem do tempo, e em vez de simplesmente fazer um cover eletrônico, desmonta a canção e a transforma quase numa aula delirante de português, com palavras passando de um idioma ao outro. Smoke City tinha conexão real com a cultura brasileira através de Miranda, mas conexão não torna ninguém imune à caricatura. É a faixa em que o álbum chega mais perto de ser um hiperbólico cartão-postal e, talvez por isso, uma das mais interessantes de discutir hoje.

“Dark Walk” volta a escurecer o disco, mas de um jeito diferente de “Devil Mood”. É uma canção com uma produção mais espectral, com forte inspiração nas batidas digitais e eletrônicas dos anos 90. Já em “Jamie Pan”, Nina reintroduz a estrutura pop, com a letra sobre uma figura infantil que traduz o desamparo de Peter Pan a um playground meio abandonado.

Por fim, “Giulietta - Interlude No. 2” é onde a cantora recita partes do monólogo do filme Julieta dos Espíritos — cantando alguns trechos, sussurrando outros, lendo o resto quase sem entonação, como se ela estivesse testando até onde o ouvinte consegue ficar. Aqui, vemos a atuação de Miranda de forma mais evidente; a prova mais clara de que o disco nunca foi feito só de bossa sedutora. A faixa-título fecha o disco, e é um gesto estranho. Depois de nove faixas construídas em cima de diversos sons, loops e produção estudada, “Flying Away” chega com uma batida contagiante, um fechamento triunfal para sua estreia.

Smoke City ainda lançaria um segundo e último álbum, Heroes of Nature, em 2001, antes de encerrar as atividades no ano seguinte. O disco nunca ganhou a mesma canonização de Dummy, do Portishead, ou Mezzanine, do Massive Attack, mas também nunca desapareceu por completo. Reedições e repressagens em vinil ao longo dos anos ajudam a explicar essa sobrevivência: Flying Away continuou circulando pelas margens, sendo encontrado por gente que chegou tarde demais para acompanhar mais do projeto.

Vinte e nove anos depois, a mistura de gêneros e sons deixou de parecer tão incomum. O que continua diferente é a falta de cálculo. Flying Away não soa como um disco tentando antecipar o futuro, muito menos como uma banda interessada em construir uma carreira em torno de uma fórmula. Soa como um futuro possível que o final dos anos 90 experimentou por alguns minutos, e depois deixou escapar.

Talvez seja justamente esse o seu melhor lugar. Flying Away vive na borda: britânico demais para ser música brasileira, brasileiro demais para caber no extenso pop britânico; pop demais para ser apenas experimento, estranho demais para ser popular. Até sua faixa mais famosa existe nesse intervalo improvável: um hit mundial, que nasceu de amigos da escola, fazendo música antes que uma campanha publicitária, uma gravadora ou o próprio sucesso soubessem exatamente o que fazer com eles.

Nota
6.5/10