Smoke City transforma Flying Away, seu álbum de estreia, num idioma e gênero musical próprio
Quase três décadas depois, o disco atravessa Londres, Rio e Paris sem declarar exatamente em qual fronteira pretende ficar.

Existe uma certa injustiça em ganhar notoriedade por causa de um comercial de calça jeans. Em 1997, a música “Underwater Love” tocou em toda parte do mundo, puxada por um homem afogado sendo salvo por sereias, numa peça publicitária dirigida por Michel Gondry para a Levi's. A faixa recebeu certificação prata no Reino Unido e chegou ao top 5 das paradas. Por um bom tempo, essa faixa foi tudo que o mundo soube sobre Smoke City. O problema é que reduzir a banda a essa trilha equivale a julgar uma cidade inteira pela vitrine de uma única loja.
Smoke City começa em Londres, onde a cantora e compositora brasileira Nina Miranda e o DJ Marc Brown se conheceram, ainda adolescentes na escola. Nina, nascida no Brasil e criada entre diferentes países antes de se estabelecer na capital inglesa, pediu ao amigo para produzir uma base especialmente para ela. A ideia virou “Underwater Love”, que saiu discretamente em 1995 por um selo pequeno. Mesmo assim, foi só dois anos depois, catapultada pela Levi's e relançada pela Jive Records, que a música virou hit de verdade. Com Chris Franck completando a formação, Flying Away, o álbum de estreia do grupo, foi construído em cima do momento de destaque; não como uma sequência óbvia, e sim como se a banda quisesse provar que aquele hit era só a ponta de algo maior.
O sucesso abre o disco sem se comportar como um. São quase sete minutos para uma faixa que acabou atravessando a televisão, duração suficiente para transformar sua popularidade em uma pequena insolência. O beat avança aos poucos, a guitarra circula ao fundo e Nina alterna entre português e inglês com uma naturalidade que faz a mudança de idioma parecer uma simples mudança de temperatura. A produção se organiza em camadas: ecos de bossa nova, percussão, samples e ruídos de natureza aparecem como se a música estivesse constantemente mudando de paisagem.
“Devil Mood” vem logo depois, e surge como se a banda estivesse sabotando qualquer tentativa de transformar o sucesso anterior em fórmula. Sons graves ocupam o espaço, a percussão permanece deliberadamente e Nina deixa de ser uma figura sedutora para brincar com sons ressoados. Se a primeira música seduzia pelo mistério, “With You” seduz pela simplicidade: a aposta de que uma frase cantada sem ornamento nenhum consegue prender alguém por quase cinco minutos.
Depois vem “Numbers - Interlude No. 1”, e o disco muda de temperatura outra vez: uma batida percussiva insistente, sem dúvidas construída para o corpo, não para um ouvido contemplativo. É a faixa mais abertamente dançante do álbum, brasileira no impulso; o contraponto físico necessário depois de duas faixas que trabalham em sussurro.
“Mr. Gorgeous (And Miss Curvaceous)” é talvez o momento em que essa lógica chega mais perto de virar pop convencional, embora “convencional” aqui continue sendo uma palavra meio distante. Há violão, um balanço reconhecível e um “ai ai ai” feito para sobreviver fora do álbum. Sobreviveu. A faixa chegou ao topo das paradas italianas em 1997; porém o mais interessante é a maneira como Smoke City trata sensualidade de diversas maneiras em seu disco. É a faixa mais evidentemente pensada para um segundo sucesso, escondida no meio de uma obra que finge não se importar com isso.
Na sequência, “Águas de Março (Joga Bossa)” pega o clássico de Tom Jobim, uma canção sobre a passagem do tempo, e em vez de simplesmente fazer um cover eletrônico, desmonta a canção e a transforma quase numa aula delirante de português, com palavras passando de um idioma ao outro. Smoke City tinha conexão real com a cultura brasileira através de Miranda, mas conexão não torna ninguém imune à caricatura. É a faixa em que o álbum chega mais perto de ser um hiperbólico cartão-postal e, talvez por isso, uma das mais interessantes de discutir hoje.
“Dark Walk” volta a escurecer o disco, mas de um jeito diferente de “Devil Mood”. É uma canção com uma produção mais espectral, com forte inspiração nas batidas digitais e eletrônicas dos anos 90. Já em “Jamie Pan”, Nina reintroduz a estrutura pop, com a letra sobre uma figura infantil que traduz o desamparo de Peter Pan a um playground meio abandonado.
Por fim, “Giulietta - Interlude No. 2” é onde a cantora recita partes do monólogo do filme Julieta dos Espíritos — cantando alguns trechos, sussurrando outros, lendo o resto quase sem entonação, como se ela estivesse testando até onde o ouvinte consegue ficar. Aqui, vemos a atuação de Miranda de forma mais evidente; a prova mais clara de que o disco nunca foi feito só de bossa sedutora. A faixa-título fecha o disco, e é um gesto estranho. Depois de nove faixas construídas em cima de diversos sons, loops e produção estudada, “Flying Away” chega com uma batida contagiante, um fechamento triunfal para sua estreia.
Smoke City ainda lançaria um segundo e último álbum, Heroes of Nature, em 2001, antes de encerrar as atividades no ano seguinte. O disco nunca ganhou a mesma canonização de Dummy, do Portishead, ou Mezzanine, do Massive Attack, mas também nunca desapareceu por completo. Reedições e repressagens em vinil ao longo dos anos ajudam a explicar essa sobrevivência: Flying Away continuou circulando pelas margens, sendo encontrado por gente que chegou tarde demais para acompanhar mais do projeto.
Vinte e nove anos depois, a mistura de gêneros e sons deixou de parecer tão incomum. O que continua diferente é a falta de cálculo. Flying Away não soa como um disco tentando antecipar o futuro, muito menos como uma banda interessada em construir uma carreira em torno de uma fórmula. Soa como um futuro possível que o final dos anos 90 experimentou por alguns minutos, e depois deixou escapar.
Talvez seja justamente esse o seu melhor lugar. Flying Away vive na borda: britânico demais para ser música brasileira, brasileiro demais para caber no extenso pop britânico; pop demais para ser apenas experimento, estranho demais para ser popular. Até sua faixa mais famosa existe nesse intervalo improvável: um hit mundial, que nasceu de amigos da escola, fazendo música antes que uma campanha publicitária, uma gravadora ou o próprio sucesso soubessem exatamente o que fazer com eles.