20 anos de “I'm Not Dead” — P!nk prova que sobreviver não é o mesmo que estar viva
O que fazer quando o terceiro álbum naufraga e o mundo já está escrevendo seu obituário? Aos 25, P!nk escreveu I'm Not Dead, e o título não era coincidência.

Eu tinha sete anos quando “Stupid Girls” entrou na minha sala de estar pelo cabo da televisão. Não sei dizer qual era o canal, mas sei exatamente o que senti: aquela mulher de cabelo cor-de-rosa curto, fazendo cara feia para a câmera enquanto satirizava tudo que eu via nas capas de revista, me apresentava à superestrela Alecia Moore, também conhecida como P!nk.
Não entendia metade do inglês, mas entendia o tom: provocante, apimentado, sem pedido de desculpa. Nos anos seguintes, P!nk continuou aparecendo. “Who Knew” e “Family Portrait” em momentos difíceis em família. “Try” e “Beautiful Trauma” quando comecei a entender mais sobre música, e sobre mim mesmo. Vinte anos depois, I’m Not Dead completou duas décadas em abril deste ano. Ouvi o disco de novo com atenção, como quem relê uma carta antiga, e a surpresa foi descobrir que ele ainda tem perspectivas novas a oferecer.
Em 2003, P!nk tinha lançado Try This — disco que tentou transformá-la numa versão feminina do post-punk e acabou virando o equivalente a uma esticada de braço que não alcança a prateleira. O álbum vendeu menos que Missundaztood, foi recebido como um trabalho irregular e encerrou um ciclo criativo marcado por desgaste. O intervalo entre os dois discos foi de três anos — em tempo de música pop nos anos 2000, uma eternidade. No meio desse silêncio, um acontecimento mudou a vida da cantora: em janeiro de 2006, ela se casou com Carey Hart, pai de seus dois filhos e com quem permanece casada. Três meses depois, lançava um novo álbum e, pela primeira vez, assumia o posto de produtora executiva da própria obra.


Foto: Andrew MacPherson/Sony BMG (2006)
O disco reunia ao redor de si um time bastante específico: Max Martin, que naquele momento transformava em fenômeno de rádio tudo que tocava; Butch Walker, com o toque certeiro do rock que ainda sabia ser pop; Mike Elizondo, cuja parceria com Fiona Apple garantia que havia vocabulário emocional real por baixo das batidas; e Billy Mann, que se tornaria um dos colaboradores mais recorrentes de sua carreira. A cantora disse que o título veio de um despertar para a vida adulta:
“Na virada dos 25 anos, simplesmente acordei. Percebi que tinha tanto a aprender, enquanto antes achava que sabia tudo. Isso é definitivamente uma parte enorme desse título.”
P!nk, em entrevista ao The Independent, 2006
O coração do disco bate mais forte em três faixas que funcionam como manifesto condensado do que a estrela de pop-rock estava se tornando. “U + Ur Hand” é a mais certeira e, sem dúvidas, a minha preferida. Max Martin construiu uma progressão de acordes que soa como alguém pulando grades, e P!nk a habita com uma precisão crua. “Cuz I Can”, por sua vez, é rock de arenas com zero pretensão intelectual, e é exatamente essa ausência de desculpa que a faz funcionar: P!nk cantando que faz o que quer porque pode, numa faixa que posteriormente abriria sua turnê mundial. Já a faixa-título, “I’m Not Dead”, é onde o disco para de gritar e começa a falar sério. Não é a mais tocada nem a mais citada, mas é a que justifica o título: tem uma lentidão deliberada, quase confessional, que contrasta com o restante do tracklist e entrega uma vulnerabilidade que o álbum não prometia, mas cumpriu.
“Leave Me Alone (I’m Lonely)” e “Fingers” existem num registro diferente, e é por isso que se tornaram favoritas dos fãs que realmente viveram esse disco. “Leave Me Alone” captura com precisão rara a contradição de querer intimidade e autonomia ao mesmo tempo, sem romantizar nenhuma das duas. “Fingers” é o tipo de faixa que P!nk só conseguiria incluir num álbum em que ela mesma fosse a produtora executiva, descarada sem ser gratuita, engraçada sem perder a intenção. As duas mostram uma cantora construindo uma persona muito específica: alguém que ri de si mesma antes que qualquer outro possa rir. “Stupid Girls” e “Who Knew” confirmaram que essa persona tinha lastro comercial real — os dois singles continuam sendo descobertos por novas gerações via playlists, o teste mais honesto de longevidade que existe hoje.
“Dear Mr. President” merece parágrafo próprio porque, em 2006, foi um gesto de coragem: uma cantora pop, no auge do conservadorismo Bush, enumerando, frase por frase, as contradições de uma presidência que havia declarado guerra e ignorado o furacão Katrina no mesmo mandato. Era a faixa mais improvável de um álbum já bastante improvável para o momento. Vinte anos depois, ela envelheceu de forma estranha — específica demais para soar atemporal, honesta demais para ser descartada.
Esse fato aponta para uma limitação maior do álbum inteiro: I’m Not Dead não soa particularmente coeso ouvido hoje. Ele aposta em muitas direções ao mesmo tempo — rock de arena, balada confessional, crítica cultural, pop de rádio, canção folk e R&B — e nem sempre essas apostas se conversam. O que em 2006 parecia versatilidade hoje às vezes soa como um disco ainda descobrindo o que quer ser quando crescer. O que, pensando bem, era exatamente a fase da artista.
O álbum fecha, discretamente, com “I Have Seen the Rain”, poema escrito pelo pai de P!nk quando era soldado no Vietnã. É um encerramento que o disco não precisava e que, justamente por isso, é perfeito. Depois de um álbum inteiro gritando que está viva, P!nk termina em sussurro. A voz de um senhor acompanhando a filha famosa num poema de guerra é o disco revelando de onde vem o combustível. Não de raiva, não de provocação, mas de continuidade.
I’m Not Dead e Funhouse (2008) marcaram a reviravolta comercial de P!nk depois do tropeço de Try This. Os dois álbuns juntos geraram alguns dos maiores sucessos de sua carreira. Nos vinte anos seguintes, ela construiu uma das trajetórias mais consistentes e subanalisadas do pop: The Truth About Love (2012) foi seu primeiro álbum a liderar a Billboard 200; Beautiful Trauma (2017) terminou o ano como o terceiro álbum mais vendido do mundo e sustentou a turnê feminina de maior bilheteria da década de 2010.
Aos 26 anos, Alecia Moore decidiu que não ia pedir licença para continuar existindo no pop. Assumiu o controle de produção, escolheu os colaboradores, escreveu o que precisava escrever e lançou um álbum com o título mais básico e mais preciso possível. Os discos que mudam alguma coisa raramente são os impecáveis, mas são os que sabem onde querem chegar — e têm convicção suficiente para fazer o ouvinte acreditar que também vai.