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Três check-ins no Overlook: entenda as diferenças entre o livro, o filme e a minissérie de O Iluminado

King, Kubrick e Garris contam a história do mesmo hotel, mas cada versão encontra uma saída diferente.

Wendy, Danny e Jack Torrance no carro a caminho do Overlook, em O Iluminado (1980).

Todo mundo já ouviu falar de O Iluminado. O machado, o “Here’s Johnny!”, as gêmeas no corredor, o triciclo: virou tanto repertório que a nova geração pode confundir a obra com um meme. Mas existe uma razão simples, e bem menos misteriosa que qualquer teoria de fórum, para essa obra continuar escapando pelos dedos: o hotel Overlook foi construído três vezes, por três pessoas, e cada uma queria explorar uma capacidade diferente do “ser iluminado”.

Stephen King pergunta se um homem consegue parar de beber. Kubrick, na minha leitura, pergunta se dá para sair de um lugar que parece já ter decidido quem você é. Garris, que filmou o roteiro de King duas décadas depois em uma minissérie, pergunta se uma família consegue sobreviver. Mesmo hotel, três perguntas, três saídas. Vamos ao check-in.

O livro: um homem que deseja ficar sóbrio

Em 1974, Stephen King e a mulher, Tabitha, se hospedaram no Stanley Hotel, em Estes Park, no Colorado, quase no fim da temporada, quando praticamente eram os únicos hóspedes. Dali saiu o Overlook, e o quarto 217 saiu junto. O romance, publicado em 1977, é uma história de fantasmas, mas também a história de um pai alcoólatra tentando reconstruir a vida num emprego de zelador durante o inverno. O isolamento promete a Jack Torrance tempo para escrever e uma chance de recuperar a confiança da família. É uma promessa ruim para alguém que já leva tanta coisa para dentro do hotel.

Ao longo do livro, King deixa a gente morar na cabeça dos três Torrance. Jack carrega a culpa de ter quebrado o braço do filho, o ressentimento de uma carreira interrompida e a convicção de que ainda merece outra chance; Wendy mede o perigo de ficar contra o medo de partir; Danny percebe aquilo que os adultos preferem não nomear. A “iluminação” é a capacidade psíquica que aproxima o menino de Dick Hallorann, o cozinheiro, e faz dele um alvo precioso para o Overlook. Os fantasmas não aparecem apenas para decorar o corredor: trabalham com as fragilidades que encontram ali.

O filme: o hotel toma o controle

Kubrick escolheu O Iluminado depois de Barry Lyndon (1975), quando buscava um tema sobrenatural. Ele montou o roteiro com a romancista Diane Johnson e levou o projeto para os estúdios de Elstree, na Inglaterra, onde foram construídos os grandes interiores do Overlook e uma reprodução de seu exterior. Os planos externos do hotel usam o Timberline Lodge, no Oregon. A produção atravessou 1978 e entrou em 1979; até os registros divergem sobre o encerramento exato das filmagens.

Agora a parte que me interessa de verdade: como o filme se parece.

John Alcott, o diretor de fotografia, trabalhava com Kubrick desde 2001: Uma Odisseia no Espaço e tinha ganhado o Oscar por Barry Lyndon. Em entrevista à American Cinematographer em 1980, ele conta que a proposta era deixar a câmera circular pelos cenários usando, sempre que possível, as próprias luminárias do hotel. Lustres, arandelas e fluorescentes foram incorporados ao projeto de iluminação e controlados à distância. Não era simplesmente acender um hotel de verdade: era construir um hotel inteiro que pudesse funcionar como equipamento de cinema.

O efeito, na minha leitura, é um lugar que parece ter luz própria. O Overlook não precisa se esconder no escuro para ameaçar ninguém. A claridade permite olhar, mas não ajuda a entender o que estamos vendo. Acho que é metade do mal-estar do filme.

Jack e Grady conversam no banheiro de paredes vermelhas e louças brancas.
Jack e Grady no banheiro vermelho (1980).

Alcott planejou a luz com maquetes fotografadas e contrapôs o calor dos interiores à luz azulada das janelas nas sequências de neve. A aparência contínua dependia de uma enorme fabricação técnica, inclusive de iluminação suplementar quando necessária. O que parece natural ao hotel foi cuidadosamente produzido para a câmera. É essa contradição que me interessa: um espaço inteiramente construído consegue parecer mais indiferente à nossa presença do que uma locação real.

Danny corre entre sebes cobertas de neve sob luz azul.
Danny no labirinto coberto de neve (1980).

A câmera que anda atrás

A Steadicam é o outro protagonista do filme. Seu inventor, Garrett Brown, descreveu na American Cinematographer as demonstrações de precisão que fez para Kubrick e a adaptação do equipamento para filmar perto do chão. A possibilidade de manter a lente baixa foi decisiva para acompanhar Danny pelo hotel.

O que sai disso é a sensação de um olhar fixo. A câmera segue atrás dos personagens, entra em quartos, vira esquinas na altura de uma criança no triciclo. A alternância entre o ruído das rodas no piso e o silêncio do carpete transforma uma brincadeira numa contagem regressiva sem relógio. No labirinto, o deslocamento continua, mas o espaço deixa de oferecer orientação. Aqui, o “outro jeito” de fazer horror foi trocar o esconderijo pela arquitetura.

Danny em seu triciclo no corredor de carpete laranja e marrom.
Danny percorre o Overlook de triciclo (1980).
As irmãs Grady de vestidos azuis diante do papel de parede floral.
As irmãs Grady no corredor (1980).

Eu defendo o filme pela imagem e abro a guarda quando o assunto é composição. Pense no salão em que Jack tenta escrever: o corpo fica pequeno diante das paredes, das vigas e das distâncias que Wendy precisa atravessar para falar com ele. A simetria não organiza a família; organiza o hotel em torno dela. No banheiro vermelho, a conversa com Grady ganha a educação absurda de um encontro profissional, enquanto o cenário parece já ter absorvido toda a violência que os dois ainda vão colocar em palavras.

Stanley Kubrick e equipe preparam uma cena com Jack Nicholson e Shelley Duvall no salão do Overlook.
Kubrick e equipe no salão do Overlook (1980).

Os rostos, e o que eles custaram

Jack Nicholson abraça Danny Lloyd no quarto do Overlook.
Jack e Danny no quarto (1980).
Steven Weber como Jack Torrance com um malho de croqué na minissérie.
Jack transformado, interpretado por Steven Weber (1997).

Nicholson era a primeira escolha de Kubrick para Jack. Segundo o catálogo do American Film Institute, ele topou trabalhar seis meses e acabou passando treze diante das câmeras; também adiou a divulgação até ver o filme pronto. A duração da produção ajuda a dimensionar o trabalho, mas não explica sozinha o resultado. O filme depende tanto do tempo gasto quanto do contraste entre os corpos que ocupa.

E tem a Duvall. O filme ganhou duas indicações no primeiro Framboesa de Ouro, em 1981: pior direção, para Kubrick, e pior atriz, para ela. Em 2022, os organizadores retiraram a indicação dela, atribuindo a decisão ao tratamento recebido durante a produção. Em entrevista à Hollywood Reporter no ano anterior, Duvall havia falado do desgaste de sustentar o choro e o medo por tanto tempo. O documentário de Vivian Kubrick também registra tensão entre atriz e diretor. Shelley Duvall morreu em julho de 2024, aos 75 anos.

A informação permite ler a atuação dela de outra forma: o estranho pavor que a gente vê na tela ganha uma camada que talvez não tenha sido só construída. Mas eu prefiro não usar isso como justificativa estética. O filme funciona sem esse dado, a performance dela é uma das melhores do gênero, e o sofrimento real de alguém não é um efeito especial.

Nicholson trabalha na direção oposta. Ele saboreia as pausas, abre o sorriso um pouco além do confortável e transforma uma conversa doméstica numa apresentação para uma plateia que só ele parece enxergar. No bar, encontra em Lloyd o ouvinte ideal: alguém que não vai interromper sua versão dos fatos. Na escada, repete as palavras de Wendy para ridicularizar o medo que ele mesmo produz. É um homem que vai substituindo a conversa pelo número de palco, até a porta do banheiro virar sua moldura mais famosa.

Duas coisas me incomodam, e uma delas é justamente a crítica mais famosa que o filme ganhou. A primeira: o Jack de Nicholson já entra com a sobrancelha armada. Stephen King reclamou que o personagem parecia instável desde o início, e eu concordo em parte. O filme troca a tragédia de um homem pelo horror de um lugar, e o que ganha em imagem perde em custo emocional: quando Jack chega ao pior, a gente já estava esperando por isso havia uma hora.

A segunda: Wendy. Ao criticar a adaptação, King a chamou de “screaming dishrag”, um pano de chão que grita. A objeção era à construção da personagem, mas a fórmula também acaba achatando o que Duvall faz com ela. Wendy investiga os papéis do marido, se defende, o tranca na despensa e encontra meios de tirar Danny dali. Há uma discussão legítima sobre o espaço que o roteiro lhe dá; reduzir sua atuação a gritos só repete a injustiça por outro caminho.

A minissérie: o mesmo hotel, agora com intervalo comercial

Rebecca De Mornay, Courtland Mead e Steven Weber como a família Torrance diante do hotel na minissérie de 1997.
Os Torrance diante do hotel (1997).

Em 1997, a ABC exibiu Stephen King’s The Shining em três noites, de 27 de abril a 1º de maio. Foram cerca de quatro horas e meia, com roteiro de King e direção de Mick Garris. A motivação é conhecida: King não gostou do filme e quis uma adaptação mais próxima de seu romance. O projeto fez parte de sua colaboração com a televisão americana, que já havia rendido A Dança da Morte.

O primeiro deslocamento é o lugar. A minissérie foi filmada principalmente no próprio Stanley Hotel, que havia inspirado o romance. Voltar ao endereço de origem, porém, não significa voltar à mesma imagem: o enquadramento televisivo, a duração e o modo de apresentar as aparições constroem outro ritmo. É um Overlook mais interessado em contar sua história do que em nos deixar perdidos dentro dele.

O resultado é o que eu chamaria de imagem de novela. O hotel é de verdade, a luz tem acabamento de televisão e a história é feita para durar três noites com gancho entre as partes. O desfecho acrescenta um epílogo de folhetim: Danny se forma no colégio dez anos depois, Wendy e Hallorann estão na plateia, e o espírito do pai aparece. A destruição do Overlook vem do romance; a formatura é uma ampliação da minissérie. Não é o fecho de Kubrick. É a adaptação que leva mais longe a vontade de oferecer algum consolo àquela família.

Steven Weber faz um Jack cuja deterioração precisa ser acompanhada, não apenas aguardada. Rebecca De Mornay interpreta uma Wendy com mais espaço para confrontar o marido e proteger Danny, vivido por Courtland Mead. Melvin Van Peebles assume Hallorann. As participações de Sam Raimi, Frank Darabont e do próprio King, como regente da orquestra do baile, dão à produção o ar de uma reunião de gente do gênero.

Wendy, de costas, encara Jack armado com um malho no corredor do hotel.
Wendy e Jack no corredor (1997).

Um hotel que ainda está em revisão

Em 20 de outubro de 2026, a Criterion lança The Complete Kubrick, uma caixa de 30 discos, em 4K UHD e Blu-ray, com os 13 longas e três curtas do diretor. Entre os extras estão uma restauração em 4K do documentário de Vivian Kubrick e as versões americana e internacional de O Iluminado. Não se trata da estreia da versão longa americana em home video nos Estados Unidos: o interesse está em reunir e restaurar os dois cortes.

Isso importa porque mostra que o filme definitivo foi, na época, um filme em revisão. Kubrick retirou um epílogo hospitalar pouco depois da estreia americana e depois encurtou o longa para a distribuição internacional. Os cortes conhecidos têm cerca de 144 e 119 minutos. O Kubrick intocável, na prática, mexeu na própria obra.

E o hotel continua vivo fora da tela. A Bonhams anunciou para fevereiro de 2027 o leilão de peças do arquivo de Kubrick, incluindo um machado de O Iluminado e os vestidos das irmãs Grady, com exposição pública em Londres antes da venda. Até os objetos continuam fazendo check-out para outro lugar.

Talvez seja essa a graça de visitar o Overlook três vezes. King quer que a gente reconheça o pai antes de perdê-lo. Kubrick faz a gente desconfiar de que o hotel o reconheceu primeiro. Garris deixa a família se despedir. Nenhuma chave abre exatamente a mesma porta.

Fontes consultadas

Stephen King; American Cinematographer — John Alcott; American Cinematographer — Garrett Brown; AFI Catalog; The Hollywood Reporter; Bloody Disgusting; Television Academy; Criterion — The Complete Kubrick; Criterion — The Shining; Framboesa de Ouro; Bonhams.

Imagens: Warner Bros.; Warner Bros. Television / ABC. Reprodução: American Cinematographer, Bloody Disgusting, SlashFilm, ACMI, Into Film, Vague Visages, IMDb e StephenKing.com.