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Inhotim vale cada passo, e foram muitos

Entre galerias, lagos e jardins, um dia inteiro confirma que, em Inhotim, a arte não começa nem termina dentro das paredes.

Bromélias diante do lago e das palmeiras do Jardim Botânico Inhotim

Fui a Inhotim em abril e voltei convencido do que ele é. O caminho entre as obras passa por uma palmeira rara do Sri Lanka, por um lago espelhado e por uma estufa repleta de orquídeas. É quase uma armadilha bem-intencionada: você procura arte pelo jardim e acaba parando para olhar uma planta que nem sabe o nome.

Inhotim fica em Brumadinho, a cerca de 60 quilômetros de Belo Horizonte, e em 2026 completa 20 anos aberto ao público — justamente o ano em que o The New York Times o incluiu, como único destino brasileiro, entre os 52 lugares para conhecer no mundo. Com 140 hectares abertos à visitação, é um daqueles lugares cuja dimensão você entende menos pelo mapa do que pelo corpo: caminhando.

Mas museu é uma palavra que não cabe direito. Inhotim também é Jardim Botânico, reconhecimento concedido em 2010 pela Comissão Nacional de Jardins Botânicos. São cerca de 4.300 espécies de plantas vasculares, nativas e exóticas, organizadas como um acervo vivo — com palmeiras, aráceas, árvores, bromélias e orquídeas entre os grupos mais representativos. A paisagem não está ali apenas para emoldurar as obras: ela também é pesquisada, documentada, propagada e conservada.

Exterior da Galeria Claudia Andujar Maxita Yano em Inhotim
1. Galeria Claudia Andujar Maxita Yano. Foto: Eduardo Eckenfels/Instituto Inhotim.
Galeria Adriana Varejão sobre um espelho d'água em Inhotim
2. Galeria Adriana Varejão. Foto: Eduardo Eckenfels/Instituto Inhotim.
Detalhe da instalação True Rouge, de Tunga, em Inhotim
3. True Rouge (1997), de Tunga, na galeria inaugurada em 2002. Foto: Carol Lopes/Instituto Inhotim.
Interior envidraçado de Sonic Pavilion, de Doug Aitken, em Inhotim
4. Sonic Pavilion (2009), de Doug Aitken. Foto: Daniela Paoliello/Instituto Inhotim.

O acervo artístico reúne hoje mais de 900 obras em exposição, de 50 artistas de mais de 18 países. Yayoi Kusama, Hélio Oiticica, Adriana Varejão e Cildo Meireles aparecem ao ar livre e em galerias concebidas para trabalhos específicos. Em 2022, o fundador Bernardo Paz transferiu definitivamente ao Instituto cerca de 330 obras de sua coleção, todas as galerias e obras permanentes, os 140 hectares da área de visitação e a coleção botânica. Mais do que um gesto de escala, foi uma mudança de natureza: uma coleção nascida de um projeto pessoal passou a ter sua permanência ligada a uma instituição sem fins lucrativos e à sua vocação pública.

Seria um erro tratar os jardins como passagem entre galerias. O Jardim de Transição, por exemplo, faz o encontro entre Mata Atlântica e Cerrado — dois dos biomas mais biodiversos e ameaçados do mundo — em uma trilha com dezenas de espécies catalogadas, algumas em risco de extinção. Já o Jardim Sombra e Água Fresca, o maior do parque, ocupa 32 mil m² percorridos por caminhos permeados por água pura de nascente. São cerca de 700 espécies, principalmente palmeiras e árvores frutíferas. Você caminha entre elas sem perceber quantas já atravessaram o seu campo de visão.

Tamboril de copa ampla nos jardins de Inhotim
Tamboril em Inhotim. Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação.

Existe um nome para esse hábito de reduzir o verde a cenário: cegueira botânica. O termo descreve nossa dificuldade de perceber as plantas ao redor, reconhecer suas diferenças e entender o papel que ocupam no ambiente. Inhotim trabalha contra essa distração. Depois de algumas horas ali, uma árvore deixa de ser apenas sombra, uma palmeira deixa de ser decoração e o jardim começa a exigir o mesmo tempo de observação que uma instalação.

Fui por um dia inteiro. Não é pouco, mas também não é suficiente. E talvez seja exatamente esse o ponto: Inhotim não é um lugar que se conclui. É um lugar que muda de acordo com o caminho escolhido, com o tempo gasto diante de uma obra e até com a planta que, por acaso, faz você parar.

Você sai com a sensação de ter visto muito — e de ainda ter quase tudo para ver. É um lugar que convida a voltar.