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Em Day and Night, Carly Rae Jepsen finalmente encontra o amor que sua discografia passou anos procurando

Aos 40, a cantora transforma uma nova fase da vida num álbum longo, contraditório e interessado no que existe depois da paixão.

19 SET 202612 MINPOR CAIO CALIEL
Capa oficial do álbum Day and Night, de Carly Rae Jepsen

Depois que “Call Me Maybe” foi lançado em 2012, o roteiro parecia óbvio: Carly Rae Jepsen teria seu hit gigantesco, agradeceria a atenção e desapareceria. Ela preferiu fazer o contrário. Ficou, lançou discos muito melhores do que a música que a tornou famosa e construiu um público que trata cada novidade como questão de honra.

Agora, aos 40 anos, casada e com um bebê de poucos meses, seria perfeitamente razoável esperar dela aquele disco sóbrio, adulto e cuidadosamente contido para acompanhar esse estágio da vida. Carly respondeu com um álbum duplo de 24 faixas, dividido entre dia e noite, dedicado justamente ao que vem depois do “felizes para sempre”: a rotina, a intimidade e as pequenas estranhezas de quando o amor dá certo. Um território que o pop, tão obcecado pela conquista e pelo desastre, quase nunca sabe explorar.

Carly ficou em terceiro lugar no Canadian Idol em 2007 e, no ano seguinte, estreou com Tug of War, um disco de inclinação folk. Mas foi a partir de Emotion, em 2015, três anos após “Call Me Maybe”, que ela encontrou o lugar que ocuparia no pop: o de uma compositora capaz de escrever músicas com tamanho de megahit, mesmo quando as paradas não diziam isso. O disco virou o grande marco da carreira e, desde então, também desenvolveu uma relação curiosa com aquilo que normalmente ficaria pelo caminho. Faixas descartadas passaram a ganhar uma segunda vida em projetos como Emotion: Side B e Dedicated: Side B. Depois, The Loneliest Time e The Loveliest Time transformaram essa lógica em dois álbuns separados, mas complementares. Day and Night parece a conclusão natural desse processo: Carly finalmente parou de separar o disco das suas “sobras” e decidiu que tudo podia fazer parte da obra desde o início.

Da pandemia para cá, a vida de Carly avançou quase mais rápido que a própria discografia. Ela conheceu o produtor Cole M.G.N., assumiu o relacionamento no ano seguinte, ficou noiva em 2024 e anunciou a primeira gravidez em março de 2026. Gravado entre 2023 e 2025, Day and Night acompanha justamente esse deslocamento de vida.

Carly Rae Jepsen de olhos fechados, sentada ao sol sobre uma manta no ensaio de Day and Night
Fotografia: Vince Aung.

A divisão entre dia e noite surgiu primeiro como uma solução prática. Carly contou à NME que tinha, de um lado, músicas mais orgânicas, próximas das raízes folk, e, do outro, faixas mais escuras e sintéticas. Tavish Crowe, colaborador de longa data desde Emotion, encontrou a imagem que amarrou tudo: “uma festa incrível numa casa com andar de cima e andar de baixo”. A metáfora funciona, mas as letras explicam melhor o disco do que qualquer conceito visual. O dia é onde Carly parece segura do que escolheu; a noite é onde essa segurança começa a ranger.

Isso também ajuda a entender por que, desta vez, Carly não quis empurrar metade das músicas para um futuro Side B. Ela já disse que, muitas vezes, suas faixas favoritas acabavam justamente nesse lugar secundário, algo que sempre lhe pareceu estranho. Em Day and Night, a solução foi simples: parar de tratar certas partes de si mesma como material excedente.

O dia começa em “After All”, dentro de casa. A letra encena uma mudança para um apartamento de um quarto, a decisão de trancar as portas e deixar o mundo do lado de fora, a vontade de tomar posse daquele espaço, comprar flores e pedir ao parceiro que tire a camisa. É uma abertura pequena na escala e grande na tese: estabilidade não aparece como inimiga da criatividade, mas como condição para que ela exista de outro jeito. Para uma artista que construiu boa parte da carreira em torno da expectativa e da ansiedade romântica, descobrir que o amor realizado também pode produzir música já muda o eixo do disco desde o primeiro minuto.

“Habits of Creatures” empurra essa ideia para o terreno mais banal possível. O drama agora é dormir até tarde no fim de semana, tomar banho, sair para caminhar. O arranjo acompanha essa intimidade, mais caseiro e menos interessado no oitentismo pop que costuma cercá-la. “Burning Heart” faz outro pequeno deslocamento: desta vez, não é o coração de Carly que ameaça quebrar. Ela olha para o parceiro, vê fogo nos olhos dele e imagina permanecer ali até o fim. O romance continua intenso, só que a intensidade já não depende da possibilidade de perdê-lo.

“On Wires” devolve um pouco da obsessão. O refrão praticamente gira em torno da repetição do quanto ela o quer, sustentado por piano e vozes sampleadas, e funciona justamente porque não tenta escapar dessa insistência romântica da parte Day. O clipe torna tudo ainda mais caloroso: gravado durante a gravidez, mostra Carly sendo constantemente puxada por um cabo de um microfone, enquanto tenta avançar. Uma síntese possível do momento do disco, com a vida pessoal avançando numa direção e a música puxando pela outra. Não necessariamente como conflito, mas como duas forças que agora precisam aprender a disputar pelo mesmo corpo.

O que impede o lado do dia de virar apenas uma completa peça de felicidade são as rachaduras. “Good Fine Alright” prefere olhar para um amor antigo, e o “estou bem” do título soa menos como confirmação do que como álibi. A repetição do mesmo “você”, que em “On Wires” parecia pura obsessão, reaparece aqui muito semelhante, mas apontada para outra pessoa. É uma pequena escolha que diz bastante sobre o disco: às vezes, o sentimento mantém a mesma linguagem mesmo quando o destinatário muda. O corpo segue repetindo gestos, mesmo depois de uma relação acabar.

“Something Tragic” endurece esse movimento. É a primeira vez que Carly xinga no disco, e o faz com desdém em relação às faixas anteriores, enquanto a letra começa a encostar mais diretamente no que esse ex de fato fez. Já “Wild Child”, uma balada de inclinação folk, muda novamente o foco: o problema não está no outro, mas nela mesma. Carly canta emoções grandes demais, o receio de ter ultrapassado algum limite e a sensação de que ainda pode haver estrago pela frente.

O limite dessa primeira metade está justamente no que sustenta o conceito. O lado do dia permanece quase sempre dentro da mesma temperatura sonora, como também observou a NME, e isso pode achatar alguns momentos. Quem procura aquelas viradas mais excêntricas de Carly Rae Jepsen talvez sinta falta de um pouco mais de risco. Aqui, a cantora parece menos interessada em surpreender do que em permanecer dentro de um mesmo estado de espírito.

Mas o “dia” fecha com a cena mais solar do disco. Em “Just a Little Walk on the Moon”, a letra se resume a um gesto: um dedo encosta no pulso dela, e isso basta como felicidade, algo que os fãs leem como dedicado ao bebê recém-nascido. O som acompanha o tamanho da cena: sussurro suave no lugar de qualquer refrão, com uma base folk que abre espaço para toques de jazz, bossa nova e teclado. É a faixa em que Carly mais baixa a voz, e encerra a primeira parte com precisão.

Carly Rae Jepsen olhando para a frente em uma cena noturna do ensaio de Day and Night
Fotografia: Vince Aung.

Aí vem a virada, e o disco não faz questão nenhuma de escondê-la. “Never Let a Good Thing Die” abre a noite com a faixa mais longa do álbum. Bateria mais pesada, baixo mais solto e uma influência evidente de ABBA e da disco music. É como se Carly apagasse a luz do apartamento e acendesse a pista.

“Don’t Leave Me on the Dance Floor”, terceiro single, segue nessa mesma direção com uma melodia brilhante e uma ideia muito boa: transformar uma briga de casal num pedido para adiar a discussão até a música acabar. Carly contou à NME que saiu de uma sessão de ABBA Voyage, em Londres, querendo fazer sua própria versão de ABBA com sintetizadores. É aqui que essa vontade deixa de ser desejo e vira trabalho.

Um dos grandes momentos da parte da noite é “Motivation”. Quarto single do álbum e escrita com o marido, a faixa mistura house, voz filtrada e uma produção única para falar de família em três direções ao mesmo tempo: a família de onde ela veio, a que está construindo agora e aquela que encontra nos shows. É um dos momentos mais divertidos do disco justamente porque também é um dos mais complexos. Carly contou que a música começou durante uma visita à cidade natal, no outono, quando pensava em como famílias conseguem ser, ao mesmo tempo, lugares de amor e de cobrança permanente. A letra guarda as duas coisas. Há gratidão, a rua da infância, o amigo em quem ela confia, mas também a dúvida sobre de onde veio seu perfeccionismo. A música celebra e interroga na mesma medida, talvez porque formar uma família também implique revisitar aquela de onde você veio.

Mas nem toda letra encontra essa precisão. Em “Diver”, Carly pode ser literal demais, como se imaginar como uma aranha presa no amor do parceiro e comparar bagunça a um floco de neve. Já “You Don’t Know How It Feels” funciona pelo movimento oposto. Ela abandona as metáforas e chega a um novo problema central de um amor que funciona: ele nunca parece durar o suficiente. Carly quer mais dias, mais noites, mais tempo. Não porque falte amor, mas porque, pela primeira vez, o que falta é simplesmente tempo.

“Amalfi Coast” mostra bem o que o lado da noite faz com a produção. A faixa leva o nome do lugar que, segundo Carly, ajudou a inspirar o álbum: uma viagem do casal pela Costa Amalfitana. A batida é uma excursão, com um certo tipo de elegância digital dos anos 2000, e caberia sem esforço em Fever, de Kylie Minogue. É reta, cativante e soa como mais um daqueles momentos em que Carly lembra por que continua tão boa em escrever pop. “Near or Far” mergulha mais fundo. O house aparece, os sintetizadores ficam mais agressivos e a voz aparece mais rouca. Há algo da melancolia eletrônica de Ray of Light, de Madonna, nessa possibilidade de fazer música de pista que também parece contemplativa e estranhamente espiritual.

Na reta final, “That’s Just Me” e “Diver” são as faixas que mais lembram a Carly de Emotion: pop oitentista desde o princípio. “That’s Just Me” é sonhadora e triste, um anseio quase sem defesa, e poderia perfeitamente ter sido um descarte de Emotion. Isso é um grande elogio. A faixa carrega o brilho de uma linguagem que Carly já domina no ponto certo. “Diver”, apesar de uma letra tola, permanece na mesma paleta, com um baixo pulsante. As duas faixas trazem aquela sensação de, em algum momento, reencontrarmos uma versão antiga da cantora dentro de uma novela antiga.

Então chega “Super Sage”, e a escolha de Carly para encerrar o álbum talvez seja uma das mais inteligentes dela. A música não termina na pista de dança, nem tenta criar um novo hit. A faixa começa introspectiva, com medo de afastar o parceiro, enquanto um vocoder abre espaço para sintetizadores que vão se acumulando. Depois de atravessar a noite inteira, Carly repete “acredite, eu te amo” e pede espaço para uma vida mais calma. É quase uma resposta à própria arquitetura do disco: a noite não termina em festa, mas em prece. Talvez seja por isso que Day and Night me convença tanto: depois de quase 90 minutos tentando provar a solidez desse amor, Carly termina admitindo o quanto ela também é frágil.

A crítica captou justamente essa ambição, ainda que nem sempre tenha concordado sobre o resultado. A duração virou um dos principais pontos de discussão: para muitos, as 24 faixas pesam; para outros, é exatamente esse excesso que permite a Carly colocar no álbum os riscos, desvios e ideias que antes provavelmente acabariam relegados a um Side B. A fadiga de 90 minutos existe e é difícil negar. Mas o próprio disco parece responder a isso sem muita culpa: às vezes uma relação também se alonga e se repete. Um álbum mais enxuto talvez tivesse mais impacto imediato, mas seria menos parecido com aquilo que ele narra.

É aí que está a verdadeira mudança. Carly passou boa parte da carreira escrevendo sobre expectativa, quase-amores e a ansiedade do que ainda pode acontecer. Em Day and Night, ela escreve do lado de dentro: com medo de estragar o que deu certo, com antigos relacionamentos ainda atravessando a memória, com uma família que a formou e também a cobrou, e com outra que agora começa a construir. Depois de tantos discos pop obcecados pelo início ou pelo fim do amor, Carly fez um sobre o meio. E o meio, como o próprio álbum faz questão de lembrar, é longo mesmo.

Nota
7.9/10