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Candy transforma um romance de juventude em uma queda anunciada

Com Heath Ledger no centro de uma história dividida entre Céu, Terra e Inferno, Neil Armfield filma o amor no instante em que ele deixa de ser suficiente.

Candy e Dan sorriem um para o outro em Candy, de Neil Armfield

Depois que Candy chegou aos cinemas em 2006, uma pintora australiana chamada Megan Bannister se identificou publicamente como a mulher que inspirou a personagem-título. Ela é hoje reconhecida como ex-mulher de Luke Davies, autor do romance que deu origem ao filme — um livro escrito a partir da própria dependência de heroína que ele viveu, ainda jovem, ao lado dela.

A revelação chegou depois que o filme já estava em cartaz havia algum tempo. É um lembrete simples, mas fácil de esquecer diante da elegância da estrutura em três atos que organiza o filme: por trás da ficção existiu uma dependência real, vivida por duas pessoas reais — e uma delas só decidiu se apresentar ao público depois que a outra já tinha transformado aquela história em roteiro, elenco e trilha sonora.

Foi essa mesma história — de amor e overdose, contada por quem sobreviveu a ela — que Neil Armfield decidiu levar ao cinema tendo, segundo registros da produção, apenas um nome em mente para o papel do poeta Dan: Heath Ledger. Sem testes e sem alternativa de reserva caso o ator dissesse não. É uma aposta notável vinda de qualquer diretor na metade dos anos 2000, mas soa ainda mais imprevisível por um detalhe: o ator morreria por overdose acidental, dois anos depois.

Candy foi o primeiro longa-metragem de Armfield feito para cinema. Até ali, sua carreira inteira tinha sido feita de palco, com mais de cem peças dirigidas, mas nenhuma experiência prévia comandando uma câmera nesse formato. Um estreante em um meio novo, apostando tudo em um único ator para carregar a espinha dorsal emocional de uma história que já tinha, lastimavelmente, um final.

Candy e Dan sorriem um para o outro em uma lanchonete

O filme apresenta esse Dan e Candy (Abbie Cornish), estudante de artes, cujo romance nasce com a leveza costumeira desse tipo de história: dois jovens bonitos em Sydney, e um professor de química mais velho, Casper (Geoffrey Rush), que os acompanha com um misto de afeto paterno e cumplicidade.

A narrativa se divide em três capítulos — Céu, Terra e Inferno —, uma armação quase bíblica que o próprio filme não disfarça, e que já avisa para onde a história vai descer. É um começo de comédia romântica torta, filmado com a intimidade de quem confia nos corpos dos atores, antes do vício deixar de ser pano de fundo e se tornar o tópico de peso.

Dan observa Candy dentro de um carro em Candy

A aposta em Ledger, especificamente, se prova concreta em detalhes que não dependem de nenhuma consulta. O Dan do início dos capítulos é postura ereta, voz firme, um poeta seguro de si mesmo, mas sem grande reconhecimento. Ao longo dos atos, a mudança acontece sobretudo na voz, que perde firmeza, e no jeito de ocupar o espaço do relacionamento — claramente vemos o ator sozinho segurando toda essa transformação. É esse tipo de trabalho que só se pede a alguém em quem já se confia por completo antes mesmo de começar a filmar.

Já Cornish tinha 23 anos quando o filme estreou, e descreveu o processo de interpretar Candy em termos quase clínicos: dizia se separar conscientemente da personagem, mantendo tudo o que a overdose, a abstinência e a prostituição exigiam dela contido no espaço entre a ordem de "ação" e a de "corte" — um mecanismo que classificou como necessário para sustentar cenas tão duras. Anos depois, em 2011, Cornish dedicaria um prêmio de cinema à memória de Heath Ledger — um gesto que, lido em retrospecto, aproxima a disciplina profissional que ela descreveu durante as filmagens do afeto que sobrou depois que as câmeras já não estavam mais ligadas.

Uma pintura de Candy aparece apoiada entre materiais de arte

No aspecto puramente visual, Candy guarda pelo menos duas escolhas que valem ser vistas com atenção, ainda que a crítica raramente repare nelas. A primeira é a paleta de cores: o diretor de fotografia Garry Phillips filmou boa parte do primeiro ato — o capítulo "Céu" — numa gama de tons pastel muito claros, como se a luz fosse eternamente de um fim de tarde. Essa mesma paleta vai se apagando, ficando mais cinza e mais dura, à medida que a história avança para "Terra" e "Inferno" — funcionando como termômetro emocional sem que nenhum roteiro precise avisar.

A segunda é um gesto pequeno, quase decorativo, mas que resume bem o que o filme sabe fazer de melhor com imagem: a sequência de abertura, filmada dentro de um brinquedo giratório em Sydney, estabelece um plano aéreo que o filme repete, como eco visual, em momentos posteriores de vertigem e perda de controle — a mesma imagem carregando sentidos opostos dependendo de em que altura da história ela reaparece.

Candy encara a câmera diante de uma espiral pintada sobre a mesa

Prefiro não recontar os capítulos finais em detalhe: parte do que Candy consegue é justamente não deixar claro, até certo ponto, se aquele casal vai encontrar uma saída, e revelar demais aqui tiraria algo do filme que vale a pena preservar para a sua experiência de assistir. Basta dizer que a segunda metade desloca o tom inicial de comédia afetuosa para um registro muito mais duro, sem que a estrutura em três atos jamais deixe de lembrar o espectador de que uma queda estava armada desde a primeira cena.

É aí que mora também o limite mais real do filme, e ele tem menos a ver com atuação, e mais com roteiro. A separação tão nítida entre Céu, Terra e Inferno, que funciona como esqueleto narrativo, também deixa Candy um pouco preso à própria previsibilidade — como se a tragédia estivesse escancarada para surpreender enquanto experiência, restando principalmente acompanhar sua execução. Parte da crítica apontou o problema por este lado: reclamou que o filme não trazia nada de realmente novo sobre o ciclo da dependência de drogas, e que a beleza dos dois protagonistas às vezes trabalhava contra o retrato real de degradação que a história precisava contar. É uma objeção justa se formos pensar, e nem a melhor atuação resolve sozinha uma estrutura que decide o destino de um romance antes de passar pelo primeiro ato do filme.

Dan aparece parado com flores nas mãos em Candy

Hoje, Candy circula em dezenas de serviços de streaming e é programado por curadorias como a do MUBI, mas parte de sua vida atual on-line acontece num registro que Armfield não podia prever ao fechar o elenco, como dito: espectadores que tratam Ledger — morto em menos de dois anos após a estreia, por overdose acidental de medicamentos prescritos — como o verdadeiro assunto do filme, mais do que a história de Dan e Candy em si. Não é o tipo de peso que a obra pediu para carregar, e seria forçado tratar o filme como se tivesse antecipado algo sobre o próprio ator. Mas é impossível hoje ignorar que a certeza absoluta de Armfield — apostar tudo, sem plano B, em um único intérprete para contar uma história delicada sobre algo semelhante ao que aconteceria em seguida — hoje se lê com uma camada que simplesmente não esperava em 2006.

Essa é, talvez, a ironia final de uma escolha de elenco tão única e especial: o diretor confiou por completo em um casal para encarnar personagens construídos, em parte, a partir da vida real de pessoas realmente passando por dependências. O filme sabe desde o início que Dan e Candy estão caindo, e nós sabemos também; o que não sabemos é quanto ainda pode existir de amor quando amar alguém passa a significar participar, mesmo contra a própria vontade, daquilo que o destrói.

Nota
4.5/5